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o ano de 1897 o Japão é um país em grande transformação.

Isolado do ocidente por séculos, o Japão finalmente abre suas portas para o comércio e intercâmbio cultural internacional.

Uma série de transformações está ocorrendo num país que resolveu desenvolver sua indústria, sua cultura e seu comércio a qualquer custo. Essas transformações são acompanhadas de grandes convulsões sociais.

A migração de uma sociedade agrária para uma sociedade industrial tem o seu preço: o fim do período feudal.

Milhares de camponeses trocam seus lares no interior e se deslocam em direção aos grandes centros urbanos em busca de trabalho. Com isso, surgem favelas, marginalização e problemas sociais. Juji Nakada é um jovem com 27 anos, um pastor metodista que, frustrado com seu fraco desempenho no ministério de evangelização, pensa em largar o ministério. O Japão já está sendo evangelizado por cerca de trinta anos, e menos de 20% do país foi alcançado pela mensagem do evangelho.

Vou largar o ministério. É melhor ser um leigo ativo que um pastor frustrado

 diz o pastor Juji Nakada à sua esposa.

Ela responde dizendo: "Eu me casei com você por que tinha chamado para ser pastor. Como você me diz uma coisa dessas?" E continuou: "diga-me o que você precisa para ficar satisfeito com o seu ministério". Juji Nakada mencionou que na América estava acontecendo um grande avivamento. "Talvez eu devesse buscar estudar no seminário Moody, um centro onde os treinamentos são bastante práticos." O movimento pentecostal ainda não havia surgido, mas o Espírito Santo estava se movendo naquele país.

Sua esposa, então trouxe uma certa quantia em dinheiro dizendo: "Quando me casei com você, recebi este dote, pois todos sabiam que a vida de uma esposa de pastor não é fácil. Tome este dinheiro e vá para a América buscar o Espírito Santo".

 

Charles e Lettie Cowman

No ano de 1897 Juji Nakada chega aos Estados Unidos e se matricula no Instituto Bíblico Moody. Começa a freqüentar reuniões de avivamento nas casas e conhece o casal Charles e Lettie Cowman, da igreja Metodista da Graça e dava mais valor às reuniões que às aulas do seminário.

Certa vez, um dos participantes dessas reuniões de avivamento lhe disse: "buscar o Espírito Santo traz poder". Juji Nakada respondeu: "Eu não estou buscando poder, mas santidade". Num dia ele teve a experiência profunda com o Espírito Santo e sentiu que Deus o enviava novamente para o Japão. No dia seguinte, desligou-se do seminário justificando: "O que eu vim buscar na América já consegui, por isso vou embora".

Despediu-se do casal Charles e Lettie Cowman dizendo: "venha ajudar a evangelizar o Japão!" Na volta, empregou-se num navio que iria à Europa, onde fez questão de visitar os lugares por onde o evangelista John Wesley havia passado. Depois, fez uma viagem que inclui o sudeste asiático até chegar ao Japão seis meses mais tarde.

Charles e Lettie Cowman, sentiam que tinham chamado para a Índia, mas o convite de Juji Nakada os fez orar. Cientes de que o Japão era a vontade de Deus, chegaram lá em 1901 e fundaram a OMS (Sociedade Missionária Oriental).

 

Início do movimento Holiness no Japão

No ano de 1901, Juji Nakada e Charles Cowman fundaram o Salão Central de Evangelização, onde durante o dia havia treinamento teológico e à noite, cultos evangelísticos 365 noites por ano.

Chegaram a realizar 3500 noites ininterruptas de cultos evangelísticos.

Nos domingos à tarde havia o culto de Santificação (Seikai). Nesse período foi escrito o Seika.

O objetivo inicial não era fundar uma igreja, mas começar um movimento de avivamento no Japão.

Em 1912 a OMS formou uma Cruzada de distribuição de folhetos por todo o Japão. Os alvos não eram nada modestos: Em cinqüenta anos de evangelização protestante no Japão, os missionários haviam alcançado apenas 20% dos lares. A Cruzada queria alcançar os 80% restantes introduzindo algum dos evangelhos em cada casa daquele país (nessa época o Japão tinha 58 milhões de habitantes e 10 milhões e trezentas mil casas). O projeto concluiu seus alvos em 1918.

 

Pré-pentecostais

Devido ao fato dos cristãos Holiness serem muito "barulhentos" e de camadas sociais baixas (os primeiros protestantes japoneses eram da elite), eles não conseguiam se adaptar em outras igrejas. Além disso, os cristão Holiness eram "impertinentes evangelistas". Por isso, houve a necessidade do movimento virar uma denominação.

Em 1917 a Igreja Holiness do Japão foi fundada, 16 anos depois do início dos trabalhos da OMS.

 

Avivamento

A Igreja Holiness do Japão possuía uma visão missionária baseada na metodologia de Paulo. Assim como o apóstolo evangelizava primeiro os judeus por onde chegava, o visão inicial era evangelizar os japoneses residentes no exterior e daí alcançar os povos ao redor. Dessa maneira, em 1917, foi enviado o primeiro pastor evangelista para a Manchúria.

Em 1919 foi mandado um pastor para Seoul, Coréia.

Em 1925 foram enviados pastores para Taiwan e para o Brasil. Paralelamente, outros missionários surgidos no meio Holiness realizaram missões transculturais com outros povos: alguns pastores foram conviver com indonésios e nativos taiwaneses, estabelecendo trabalhos nessas comunidades. O seminário Holiness de Tóquio recebeu muitos estrangeiros, como estratégia dessa visão missionária: havia bolsistas do exterior se preparando no Japão: coreanos, chineses, russos, brasileiros, ainus, palaus (filipinos). Esses estudantes voltaram para os seus países de origem e fundaram igrejas.

 

Takeo Monobe

Culto numa tenda montada em meio a uma plantação com a presença do bispo Juji Nakada e de Takeo Monobe (1929)

Em 1925, o pr. Takeo Monobe foi nomeado para o Departamento Sul Americano da Igreja Holiness do Japão, vindo para o Brasil. Seu chamado para trabalhar com os imigrantes japoneses do Brasil foi acentuado por realizar diversas vezes despedidas a membros e amigos que embarcavam para o Ocidente em busca de uma nova vida.

Ele chegou ao Brasil no dia 15 de julho de 1925, (o dia em que comemoramos o início da Missão Holiness no Brasil), e começou seu trabalho de visitação e evangelização pelo estado de São Paulo.

Visitava as colônias de japoneses no interior do estado, ensinando a língua japonesa aos filhos dos imigrantes e evangelizando. Várias vezes lavava os pés sujos de barro das crianças e cortava seus cabelos.

Em 1926 com a vinda de sua esposa, instalou seu quartel general na Rua Conde de Sarzedas na Liberdade. Um pequeno cômodo foi o início das reuniões do missionário, onde foi colocada uma placa escrita: Igreja Holiness.

O principal modelo de expansão e crescimento da Igreja Holiness do Brasil baseou-se na estrutura familiar: onde uma ou mais famílias cristãs estivessem reunidas, uma igreja poderia surgir. Dessa maneira, a visita a esses cristãos era muito importante para que o trabalho se estabelecesse no país. A falta de recursos financeiros (não houve promessa de sustento por parte da Igreja Holiness do Japão), aliada aos precários sistemas de transporte e de comunicação do país naquela época obrigava o pr. Takeo Monobe a ficar longas estadias - algumas vezes em jejum - fora de casa. Isso consumia fisicamente o missionário.

Em maio de 1929, o bispo Juji Nakada esteve no Brasil durante um mês, realizando cultos de avivamento. Cerca de 60 pessoas se batizaram nessa ocasião. Dois jovens, José Emerenciano e Paulo Almeida foram profundamente tocados quando o bispo Nakada falou sobre as quatro dimensões do Evangelho. No mesmo ano eles partiram para estudar no seminário de Tóquio. Após a partida do Bispo Nakada, Takeo Monobe entregou-se com maior ardor à tarefa de evangelização e visitação. Embora fosse fisicamente forte, sofria dores por causa de uma doença que ninguém sabia diagnosticar.

Seu último culto missionário foi realizado num humilde lugar em Bastos, com o pastor deitado, pois não tinha mais forças para ficar em pé.

Em 25 de julho de 1930, o pastor Monobe faleceu em decorrência de câncer no fígado. Deixou sua esposa e três filhos, que foram levados ao Japão por Shimekiti Tanaami, que iria estudar no seminário de Tóquio.

 

O Grão de trigo floresce

Casa do casal Saiki em Bastos onde Takeo Monobe pregou deitado, devido ao seu estado de saúde, meses antes de sua morte Após o falecimento do pr. Monobe, o pr. Koji Tamura foi colocado como líder do grupo.

A cidade de Santos tornou-se o centro dos trabalhos missionários, que se estenderam para São Paulo, Lins, Registro e Bastos. Nesse mesmo período, outros leigos se consagraram ao ministério e mais pastores surgiram na denominação.

Nomes como Shimekiti Tanaami, Juro Yuaça, Takeo Kikuti, Yoshikatsu Nampo, Hidessato Tamura, Nagafumi Yamazaki, entre outros, tornaram-se os principais pilares da igreja Holiness, juntamente com diversos leigos que assumiram a continuidade do trabalho de evangelização entre os japoneses e seus descendentes.

 

Independência

Em 1933, em meio ao segundo grande avivamento da Igreja Holiness do Japão, a denominação estava em crise.

Devido a uma interpretação errônea de Juji Nakada a respeito da doutrina sobre a volta de Cristo (que, segundo ele, estava iminente) e da prática devido a essa crença (não se deveria mais evangelizar, mas apenas orar pela conversão do povo de Israel), a igreja Holiness do Japão estava dividida: de um lado estavam cinco professores do seminário, do outro, estava Juji Nakada. Pressionada para tomar partido de alguma facção, a Igreja Holiness do Brasil se tornou independente em 5 de julho de 1934. A falta de informações precisas e a comunicação deficiente, juntamente com o desconhecimento do desenrolar dos fatos no Japão levou a Igreja Holiness do Brasil a tomar essa decisão.

 

O Centro de Treinamento Midiã

Após a independência da Igreja, era necessário organizar uma série de coisas. Uma delas era o treinamento aos evangelistas-pastores e candidatos. Naquela época, os jovens consagrados vinham morar em São Paulo e trabalhavam numa lavanderia, de onde obtinham seu sustento e estudavam com os pastores mais experientes.

Foi uma experiência incomum para a denominação, mas foi um esforço em aprender a caminhar com as próprias pernas e formar seus próprios obreiros.

 

O período da 2ª Guerra Mundial

Com o advento da 2ª Guerra Mundial, os nikkeis passaram por momentos difícieis no Brasil, juntamente com os descendentes de alemães e italianos. Proibidos de se reunirem e de usarem a língua japonesa, muitas igrejas tiveram que fazer cultos clandestinamente, e alguns pastores chegaram a ser presos.

No Japão, a Igreja Holiness também foi perseguida por não aceitar o culto ao imperador. Lá, alguns pastores foram martirizados. Aqui no Brasil, mesmo com a proibição de se fazer reuniões em japonês, as igrejas continuaram realizar seus trabalhos de forma discreta, até que a lei fosse revogada.

 

O pós-Guerra

Após a 2ª Guerra, com a derrota do Japão, alguns descendentes de japoneses inconformados começaram a realizar atos de terrorismo. Outros, sabendo que o Japão estava em situação de penúria, resolveram ficar no Brasil. Essa decisão fez com que seus filhos continuassem os estudos e assumissem a condição de brasileiros.

Após esse período, a Igreja Holiness do Brasil começou a se solidificar e espalhar em algumas cidades do país.

Na década de 50, a OMS iniciou alguns trabalhos em parceria com a Igreja Holiness do Brasil dando origem a diversas igrejas também denominadas "Holiness".

Em 1962, no 10º Concílio Geral, os dois trabalhos se separaram e a igreja da OMS passou a chamar Igreja Missionária.

Nos anos posteriores, a Igreja Holiness continuou a se espalhar, prioritariamente onde havia concentração de nikkeis.

Além dos pastores isseis (japoneses), pastores nisseis, sanseis e não-descendentes foram se incorporando ao quadro de obreiros, indicando a contextualização da igreja no Brasil. Por outro lado, missionários japoneses também se associaram à denominação, com o fim de se trabalhar com os isseis (sobretudo, com os imigrantes do perídodo pós-guerra, pois nossos pastores isseis são do período anterior).

Toda essa diversidade cultural só tem enriquecido a denominação e acrescentado experiências e realizações.

 

Expansão de igrejas e ministérios

Apesar da identificação com a cultura brasileira e a miscigenação dos membros e pastores, a Igreja Holiness continuou sua fase de expansão geográfica em busca de concentrações de nikkeis.

Muitas igrejas novas foram surgindo através de esforços de igrejas locais em implantar congregações e de pastores missionários em fundar novos trabalhos. Algumas igrejas em zonas rurais fecharam devido à migração dos membros para os centros urbanos.

Na década de setenta os ministérios com jovens, como a Confederação das Mocidades Evangélicas Holiness e Ministério de Acampamentos surgiram, juntamente com o fortalecimento das escolas dominicais através da Superintendência Geral das Escolas Dominicais.

Nos anos oitenta e noventa, novas igrejas e congregações surgem, juntamente com novos ministérios e a denominação começa a enviar oficialmente missionários para o exterior.

É uma nova fase, cuja história ainda está sendo escrita e, com certeza, você já faz parte dela.

 

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